A ex‑presidente da Santa Casa de Campo Grande, Alir Terra Lima, foi apontada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) como líder de suposta organização criminosa que teria desviado R$ 1.970.850, recursos públicos destinados ao SUS, por meio de um contrato irregular com a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços.
De acordo com a denúncia apresentada ao juiz Waldir Peixoto Barbosa, da 5ª Vara Criminal Residual de Campo Grande, a acusação sustenta que o grupo coordenado por Alir teria direcionado a contratação da Redvalue, falsificado documentos para dar aparência de regularidade ao contrato e liberado pagamentos que não corresponderiam aos serviços efetivamente prestados.
Alir Terra Lima, então dirigente da Associação Beneficente de Campo Grande (ABCG), mantenedora da Santa Casa, responde pelos crimes de organização criminosa, sete episódios de peculato e falsidade ideológica. O Ministério Público alega que sua participação incluiu decisões estratégicas sobre a escolha da empresa e a elaboração de termos aditivos que retroagiam a data de assinatura.
Esquema de pagamentos
Os pagamentos questionados totalizam R$ 1.970.850 e foram efetuados em seis parcelas entre 2025 e 2026. Os dois primeiros repasses, de R$ 281.550 cada, ocorreram em 15 de maio e 25 de junho de 2025. Em 2026, foram realizados cinco novos pagamentos: R$ 563.100 em 12 de março, R$ 422.325 em 27 de março, e três parcelas de R$ 140.775 pagas em 28 de maio, 17 de junho e 3 de julho.
Segundo o MPMS, os valores foram pagos com recursos públicos destinados ao custeio dos serviços de saúde da Santa Casa, mas a Redvalue teria prestado apenas serviços de digitalização de prontuários que não foram executados conforme previsto no contrato, configurando peculato.
Responsáveis e processos
A investigação também aponta irregularidades na própria contratação da Redvalue. Mensagens obtidas apontam que Jary de Castro Carvalho, ex‑vice‑presidente da ABCG, teria aproximado o empresário Maurício Aparecido Benites de Rinaldo Hakime Romano, ex‑funcionário da Santa Casa, repassando informações internas para a elaboração da proposta comercial. Em uma das mensagens, Carvalho escreveu: “Vamos agilizar e limar essa MV”, referindo‑se à empresa.
O Ministério Público questiona ainda um termo aditivo ao contrato, elaborado apenas em 2026, mas com data retroativa de 30 de abril de 2025. Alir Terra Lima, Rinaldo Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa e Maurício Benites são acusados de falsidade ideológica por terem participado da redação desse documento.
Além dos crimes de peculato e falsidade, o empresário Maurício Aparecido Benites responde por corrupção ativa, supostamente oferecendo vantagens indevidas a Jary Carvalho e a Rinaldo Romano para facilitar a liberação dos pagamentos. Os dois também respondem por corrupção passiva. A denúncia menciona saques em dinheiro vivo logo após os repasses, como um saque de R$ 49.200 no mesmo dia de um pagamento de R$ 281.550, indicando que parte do dinheiro teria sido destinada a vantagens ilícitas.
Os sete réus identificados são: Alir Terra Lima; Jary de Castro Carvalho; Rinaldo Hakime Romano; Alessandro Dias Junqueira; Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa; Monique Gregório de Oliveira; e Maurício Aparecido Benites. Jary Carvalho é o único que permanece em liberdade; o Ministério Público solicitou sua prisão preventiva, mas o juiz ainda não analisou o pedido, que deverá ser apresentado em processo separado.
A decisão que recebeu a denúncia foi assinada em 1º de outubro de 2024. A partir de agora, os réus responderão pelos crimes descritos, e o Ministério Público poderá requerer medidas cautelares adicionais, como a indisponibilidade de bens. Caso sejam condenados, as penas previstas incluem reclusão e multa, além da obrigação de ressarcir o erário pelos valores desviados. O caso segue em fase de instrução, com audiências previstas para o próximo semestre, o que pode impactar a gestão da Santa Casa e a confiança da população nos serviços de saúde da região.








