Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, prepara-se para incorporar a observação de aves ao seu portfólio turístico. A iniciativa visa aproveitar a diversidade biológica da região, que conta com 419 espécies catalogadas. O foco principal é o Parque Estadual do Pombo, que já atrai interesse de visitantes de outros estados.
A proposta está em estudo pela prefeitura, que pretende capacitar condutores especializados. Esses profissionais acompanharão grupos interessados na atividade, especialmente no Parque do Pombo. Atualmente, o local desperta procura mesmo sem receber turistas de forma regular ou organizada.
Origem da demanda
Mônica Porto, diretora de Turismo do município, identificou o interesse a partir de contatos recebidos. Visitantes de outros estados buscavam informações sobre como observar aves no local. A diretora percebeu que havia uma expectativa consolidada, apesar da falta de acesso formal para o público geral.
“Eu identifiquei que o Parque do Pombo, apesar de não receber turistas, já gerava uma expectativa e uma demanda em turistas de outros estados”, afirmou Mônica Porto. Ela explicou que a origem dessa busca está ligada a registros em um aplicativo mundial de catalogação de espécies criado pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.
Pesquisadores que passaram pela região registraram dados no sistema. O Parque do Pombo já aparece com 236 espécies catalogadas na plataforma. “Eu pensei, mas por que essas pessoas conhecem o Parque do Pombo se lá não pode entrar turista?”, relatou a diretora ao explicar a descoberta da demanda.
Biodiversidade local
A riqueza de aves não se limita ao parque. A Lagoa Maior é outro ponto de observação dentro da cidade. A avifauna também pode ser vista em diferentes espaços urbanos de Três Lagoas. A reportagem registrou, por exemplo, a presença de um urutau. Essa ave é conhecida pela camuflagem que permite ao animal se confundir com galhos e troncos.
O flagrante reforça a presença de espécies curiosas mesmo em áreas movimentadas do perímetro urbano. Hugo Nogueira, médico veterinário e especialista em animais silvestres, explica que a combinação entre desenvolvimento urbano, áreas verdes e ambientes fragmentados favorece a circulação de diferentes aves pela cidade.
Entre as espécies mais comuns citadas por ele estão araras-canindé, maritacas e pombas avoantes. Espécies migratórias, como tesourinhas e andorinhas, aparecem ocasionalmente antes de seguir viagem. Uma pesquisa de catalogação realizada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em 2023, revelou a dimensão da biodiversidade local.
O levantamento, feito junto com outras instituições ambientais, indicou que Mato Grosso do Sul tem cerca de 640 espécies de aves. Mais de 65% delas podem ser encontradas em Três Lagoas. O levantamento ajuda a entender a relação das aves com o ambiente, já que a presença ou ausência de determinadas espécies pode indicar pontos de degradação ambiental.
A localização do município favorece a passagem de aves migratórias. Três Lagoas está em uma área usada para descanso e alimentação por espécies que circulam entre América do Sul, América Central e América do Norte. Há registros de aves vindas de locais como Alasca e Antártica. A presença de três grandes rios, lagoas e ambientes aquáticos ricos ajuda a explicar essa concentração.
Com esse potencial, a prefeitura estuda criar uma estratégia para transformar o Parque do Pombo em produto turístico. A ideia é capacitar condutores especializados, responsáveis por acompanhar grupos e orientar as visitas. Mônica Porto afirmou que conversou com representantes da área ambiental, que apontaram restrições à presença de pessoas no local.
A alternativa em discussão é organizar a visitação com guias treinados, de forma controlada. “Estamos trabalhando toda uma estratégia para que, se Deus quiser, a partir de 2027 a gente consiga botar o Parque do Pombo no mercado de turismo de observação de pássaros”, declarou a diretora. O desafio agora é transformar essa riqueza natural em turismo organizado, mantendo a preservação que sustenta esse patrimônio vivo.








