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60% das famílias em MS recusam doação de órgãos por desconhecer vontade do falecido

Claire Miozzo nos estúdios da Massa FM Campo Grande - Foto: Ana Lorena Franco

Em Mato Grosso do Sul, a coordenadora da Central de Transplantes, Claire Miozzo, revelou que cerca de 60% das famílias consultadas após a morte de um familiar recusam a doação de órgãos ou tecidos. De cada dez famílias entrevistadas, aproximadamente quatro autorizam a doação e seis recusam, segundo a especialista.

“A maioria do motivo que eles alegam é que desconhece a vontade da pessoa que morreu. Ou seja, a pessoa nunca conversou sobre isso, se era doadora ou não. Então, na dúvida, a família opta pelo não,” afirmou Miozzo durante a entrevista ao programa Microfone Aberto, da Rádio Massa FM Campo Grande.

Para a coordenadora, a decisão depende da família, mesmo quando a pessoa manifesta em vida o desejo de doar. Ela ressaltou que a conversa familiar pode facilitar a decisão dos familiares e que a falta de diálogo impede que a vontade de doar seja respeitada.

Claire destacou que a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) permite registrar a vontade de doar em cartório, mas que a lei brasileira estabelece que a família é responsável por autorizar a doação após a morte. “Mas no Brasil a lei é do consentimento familiar. A família parente até segundo grau é que pode autorizar a doação,” explicou a especialista.

Falta de conversa familiar

Mesmo com a manifestação registrada, a família pode recusar a doação. Por isso, a campanha Setembro Verde reforça a necessidade de falar sobre o tema dentro de casa. “Por isso, essa campanha, converse com a sua família, deixe claro em vida a sua vontade de se tornar um doador,” alertou Miozzo.

Ela acrescentou que o registro da intenção de ser doador na identidade ou em outros documentos pode ajudar, mas não substitui a autorização familiar. A coordenadora enfatizou que a família deve estar ciente da vontade de doar, inclusive de córneas, para que a decisão seja tomada em tempo hábil.

Claire também esclareceu que uma pessoa não precisa ter uma vida completamente saudável para ser considerada uma possível doadora de órgãos. Após a morte, são realizados exames para avaliar as condições dos órgãos e tecidos, e as equipes transplantadoras analisam a possibilidade de utilização em cada caso. “Poucas doenças impedem a doação. Vamos dizer, poucas doenças é uma doação, vamos dizer, absolutamente que você não pode doar. Então, as demais doenças, as demais comorbidades do provável doador são analisadas pelas equipes transplantadoras,” afirmou.

Impacto na fila de transplantes

Mato Grosso do Sul tem cerca de 812 pessoas na fila por um transplante. Claire destacou que quase 500 aguardam por uma córnea e mais de 300 esperam por um rim. Ela reforçou que a doação pode representar uma mudança significativa na vida de quem está na fila. “Porque a pessoa quando transplanta, ela tem uma vida normal, logicamente que ela tem que fazer o acompanhamento, tomar o medicamento,” explicou a coordenadora.

Ela citou o caso de pacientes renais crônicos, que podem deixar de realizar sessões de hemodiálise após o transplante, e de pessoas com problemas na córnea, que podem recuperar a visão e retomar atividades como estudar e trabalhar. Claire concluiu que a decisão final sobre a utilização de um órgão cabe à equipe transplantadora, após a avaliação dos exames e das condições do doador. Para ela, ampliar o número de doações depende principalmente da conscientização das famílias e da manifestação da vontade em vida.

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