Na terça‑feira, 20 de outubro, a sabatina que deveria ouvir o titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), André de Moura Brandão, foi interrompida e reagendada para a próxima terça‑feira por falta de segurança na Câmara Municipal de Campo Grande.
O objetivo da audiência era cobrar esclarecimentos sobre os contratos de manutenção viária e a precariedade da malha de 3.200 km de pistas asfaltadas na capital. O procedimento foi cancelado antes mesmo do início das perguntas, depois que um confronto entre manifestante e servidor resultou na quebra de um cartaz‑maquete e em agressão física dentro do plenário.
O tumulto teve início quando um comerciante exibiu um cartaz‑maquete para protestar contra as crateras abertas no asfalto. Um servidor comissionado, incomodado, avançou, rompeu o material e lançou os pedaços em direção à Mesa Diretora. Agentes da Guarda Civil Metropolitana intervieram imediatamente, mas foram desacatados; um guarda acabou agredido fisicamente antes de conseguir retirar o autor da confusão.
Perante o risco de novo confronto nas galerias, o presidente da Casa de Leis, vereador Epaminondas Neto (PSDB), conhecido como Papy, encerrou a sessão e conduziu uma reunião a portas fechadas com os vereadores e o secretário. A reunião durou cerca de duas horas, ao final da qual Papy remarcou a oitiva para a próxima terça‑feira e lamentou o desfecho da audiência.
Violência na Câmara
“A sessão foi interrompida, encerrada, diante da falta de segurança, porque não estávamos esperando nenhum indício de violência. O secretário viria prestar contas ao campo‑grandense que não aguenta mais essa crise do tapa‑buraco e quer respostas. Lamento muito que um servidor da gestão se preste a cumprir um papel desse. A gestão perdeu a oportunidade de se demonstrar republicana ao tumultuar o parlamento”, declarou o presidente Epaminondas Neto.
O primeiro‑secretário da Câmara, vereador Carlos Augusto Borges (PSB), apelidado de Carlão, criticou a presença de servidores comissionados na plateia durante horário de expediente e defendeu a intervenção imediata da segurança. “Nós íamos sabatinar o secretário técnica e politicamente, ele ia mostrar os números para toda a Câmara e a sociedade. Aí veio uma torcida agressiva que quebrou a placa de quem se manifestava pacificamente e jogou os pedaços na mesa dos vereadores. Se forem pessoas nomeadas que deveriam estar trabalhando nas suas secretarias, isso não pode. A guarda agiu corretamente ao conter os excessos”, afirmou.
O episódio ocorre em meio à crescente comoção popular diante de acidentes de trânsito fatais atribuídos às más condições das pistas. Parlamentares relataram indignação com mortes recentes de pessoas próximas, o que acelerou a formalização da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tapa‑Buraco na Câmara de Campo Grande.
CPI do Tapa‑Buraco
Mais de doze vereadores disputam as cinco cadeiras titulares da futura comissão, o que exigirá negociações entre lideranças partidárias para definir a composição regimental. Nos bastidores, a Controladoria‑Geral do Município (CGM) e o Ministério Público Estadual (MPMS) já investigam os contratos de tapa‑buracos. O MPMS deflagrou a Operação Buraco Sem Fim após suspeitas de fraudes em medições e serviços.
Mesmo sem ocupar a tribuna aberta, André de Moura Brandão concedeu entrevista à imprensa. O secretário afirmou que o Executivo municipal “abomina” atos violentos e que tomará as providências cabíveis. “Estávamos aqui prontos para responder a todos os questionamentos sobre o tapa‑buracos. A questão da CPI é um trabalho pertinente ao Legislativo, nós respeitamos. Estamos à disposição para oferecer todas as documentações solicitadas quantas vezes formos convocados”, disse.
Brandão contextualizou o desafio da infraestrutura, apontando que cerca de 1.700 km da malha ultrapassam 30 anos de uso, muito além da garantia técnica de 8 a 10 anos recomendada pelo DNIT. Desde que assumiu o cargo, em junho, a secretaria restaurou 150 mil metros quadrados de pavimento, cobrindo aproximadamente 80 mil buracos. Doze equipes operam diariamente nas sete regiões urbanas para conter o avanço dos danos no período chuvoso.
O secretário informou ainda que a prefeitura já concluiu a licitação de contratos de recapeamento para as sete regiões, mas que o início das obras estruturais depende da contenção emergencial da buraqueira nas ruas.
Com a sessão suspensa, a expectativa agora recai sobre a nova data da sabatina, que deverá ocorrer em ambiente mais seguro e com reforço da Guarda Civil Metropolitana. A população de Campo Grande acompanha o caso, que evidencia a tensão entre Executivo e Legislativo e a urgência de soluções para a crise de infraestrutura viária.








