Uma iniciativa desenvolvida em Campo Grande para o atendimento de adolescentes envolvidos em atos infracionais de natureza sexual foi apresentada em um dos principais eventos acadêmicos da área de Psicopatologia. O Projeto PREVIR, criado pelo Projeto NOVA Transforma/FUNASPH em parceria com a Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), participou do XII Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e do XVIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental. O evento ocorreu entre os dias 5 e 7 de setembro de 2026, na cidade de Vitória, no Espírito Santo.
A criação da iniciativa partiu de uma lacuna identificada na rede de proteção local. Os profissionais observaram a ausência de serviços especializados capazes de acompanhar especificamente adolescentes que cometeram atos infracionais com componente sexual. Essa carência dificultava a abordagem integral dos casos, que exigem uma compreensão mais ampla do que apenas a punição ou o registro do ato.
A metodologia adotada pelo PREVIR busca responsabilizar o adolescente pelo ocorrido, mas sem reduzi-lo exclusivamente à ação cometida. Para isso, a equipe multidisciplinar reúne profissionais de Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, Serviço Social e Antropologia. O trabalho inclui ainda avaliações neuropsicológicas e o acompanhamento direto das famílias dos adolescentes.
O objetivo central é compreender cada situação de forma integral. A análise considera não apenas o episódio de violência, mas também os relacionamentos familiares, o contexto social e as dificuldades enfrentadas pelos jovens e por aqueles que convivem com eles no dia a dia.
Apresentação acadêmica
O trabalho desenvolvido em Campo Grande foi exposto na mesa-redonda intitulada “Da Resistência à Insistência: A contribuição da psicanálise na construção de uma abordagem para o trabalho com adolescentes em conflito com a lei”. A sessão foi coordenada pelo psicólogo e psicanalista Dr. Antônio Trevisan. A discussão levou para o ambiente acadêmico uma experiência prática que nasceu da rotina de atendimento na capital sul-mato-grossense.
Dr. Antônio Trevisan apresentou o estudo “A cura pelo amor e os destinos pulsionais: os desafios na abordagem de adolescentes em conflito com a lei no Projeto PREVIR”. O trabalho aborda o atendimento de jovens entre 13 e 17 anos. O estudo destaca as dificuldades iniciais encontradas no acompanhamento, principalmente no processo de estabelecer confiança e abrir espaço para o diálogo.
Segundo a experiência relatada, a construção do vínculo com os profissionais é uma etapa fundamental. É por meio dessa relação que o adolescente consegue falar sobre situações difíceis e começar a refletir sobre suas atitudes e as consequências delas. A proposta, conforme resumido no congresso, não é justificar o ato, mas criar condições para que o jovem seja responsabilizado, elabore sua experiência e construa novas formas de relação consigo e com o outro.
Viviane Machado de Melo Vazes, coordenadora do Projeto NOVA Transforma/FUNASPH e do PREVIR, também apresentou um trabalho no evento. O estudo foi intitulado “Entre o Ato e o Sujeito: por uma direção do tratamento psicanalítico frente ao horror dos atos infracionais sexuais na adolescência”. A apresentação detalhou a proposta de atendimento do projeto e a integração entre os diferentes profissionais envolvidos no acompanhamento de cada caso.
Entre as primeiras observações feitas pela equipe técnica estão a redução da agressividade, o fortalecimento dos vínculos familiares e a maior capacidade dos adolescentes de conversar sobre conflitos. Houve também avanços no processo de responsabilização. Os resultados são apresentados como observações iniciais, pois o acompanhamento envolve processos individuais que se desenvolvem de maneiras distintas em cada família.
Papel da família no processo
O trabalho desenvolvido pelo PREVIR levou ao congresso uma análise específica sobre o papel da família durante o acompanhamento. A pesquisa foi realizada por Júnia Cristina Alves, assistente social da instituição e mestranda em Antropologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O estudo analisou o acompanhamento psicossocial de um adolescente autor de ato infracional de natureza sexual e a reorganização dos vínculos de cuidado.
O estudo, intitulado “Análise Antropológica e Psicanalítica do Acompanhamento Familiar”, acompanhou uma família durante aproximadamente nove meses. Em vez de observar somente o adolescente, a pesquisa analisou as relações familiares, os conflitos, as formas de cuidado e as dificuldades enfrentadas pela família. A atuação da rede de atendimento também foi considerada. Foram utilizados registros dos atendimentos, conversas individuais e familiares e a observação da dinâmica doméstica.
De acordo com o estudo, o acompanhamento ajudou a reorganizar algumas relações dentro de casa. Entre as mudanças observadas estão o fortalecimento da relação entre mãe e filho e a redução da sobrecarga assumida por uma irmã. Houve também a ampliação dos espaços de diálogo dentro do núcleo familiar.
Outro ponto relevante observado foi a mudança na maneira de estabelecer limites. Situações que antes eram enfrentadas principalmente com vigilância, punição ou contenção física passaram a ser trabalhadas por meio da conversa, da definição clara de limites e do fortalecimento da autoridade dos responsáveis. A análise aponta que fortalecer as figuras de cuidado é parte fundamental do processo de elaboração dos conflitos e da construção de novas formas de relacionamento.
Os relatos das famílias atendidas também ilustram a experiência do projeto. Uma das mães acompanhadas pelo PREVIR contou que seu filho, então com 15 anos, apresentava comportamento agressivo e chegou a agredi-la fisicamente. Para ela, o atendimento psicológico, o acompanhamento psiquiátrico e o auxílio para conseguir as medicações fizeram diferença durante o processo.
A mãe relatou que o filho estava muito agressivo, ao ponto de agredi-la. Ela destacou a importância do atendimento psicológico e, não menos importante, do acompanhamento do psiquiatra e da ajuda com a compra das medicações, já que a família não tem condições financeiras para arcar com esses custos. Com o passar do tempo, ela afirma ter percebido mudanças no comportamento do adolescente e uma maior disposição para participar do acompanhamento.
A mãe afirmou que o filho agora está querendo melhorar e que isso tem acontecido muito através das conversas com o psicólogo. Ela também considerou importante que o atendimento tenha continuidade, expressando o desejo de permanecer no projeto. A mãe acredita que o adolescente não tem condições de sair de todo o acolhimento das equipes que o acompanham. O relato demonstra que, para além do atendimento individual, o projeto trabalha também com quem está ao redor do adolescente e enfrenta diretamente os efeitos dos conflitos dentro de casa.
O PREVIR parte do entendimento de que responsabilização e acompanhamento podem caminhar juntos. A proposta não busca diminuir a gravidade da violência nem retirar do adolescente a responsabilidade pelo que aconteceu. O objetivo é oferecer condições para que ele seja acompanhado por profissionais especializados e possa compreender as consequências de suas atitudes.
Ao mesmo tempo, o projeto considera que a família também precisa receber orientação e apoio. Isso é especialmente relevante quando a família enfrenta situações de conflito, agressividade ou dificuldade para estabelecer limites. A equipe procura evitar explicações simplistas que relacionem automaticamente dificuldades sociais ou familiares à prática de violência. A aposta está em uma abordagem individualizada, capaz de considerar a história de cada adolescente e a realidade de cada família.
A criação do PREVIR está ligada à percepção de que ainda existem poucos serviços especializados para adolescentes envolvidos em violência sexual. O projeto busca atuar em uma área delicada da rede de proteção. Ao mesmo tempo em que mantém a preocupação com as vítimas, trabalha com o adolescente envolvido no ato e com sua família. Para os responsáveis pela iniciativa, acompanhar esse público também é uma forma de trabalhar na prevenção de novos episódios de violência.
A experiência de Campo Grande foi levada ao congresso para ampliar a discussão sobre quais estratégias podem ser utilizadas diante de casos que envolvem adolescentes, famílias, vítimas e diferentes órgãos da rede de proteção. Durante as apresentações, a experiência recebeu manifestações positivas dos participantes da mesa. A recepção foi especialmente destacada pela importância de discutir um tema que ainda apresenta lacunas no atendimento especializado.
A participação no XII Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental colocou a experiência do PREVIR em contato com pesquisadores e profissionais de diferentes áreas. O projeto levou ao evento não apenas uma discussão teórica, mas também situações observadas no atendimento realizado em Campo Grande. Os trabalhos apresentados serão publicados nos anais do congresso. Isso permitirá que a experiência e os primeiros resultados observados pela equipe sejam conhecidos por outros profissionais e pesquisadores.
O PREVIR atua em parceria com a rede de proteção e responsabilização. A iniciativa aposta no trabalho conjunto de diferentes áreas para acompanhar adolescentes e suas famílias. A proposta é contribuir para que situações de violência sejam enfrentadas com responsabilização, acompanhamento e prevenção. O projeto visa não deixar de lado a proteção das vítimas e a necessidade de interromper possíveis ciclos de violência. A publicação dos anais do congresso marca o próximo passo para a difusão dessa metodologia de atendimento.







