O Supremo Tribunal Federal (STF) foi duramente avaliado pela revista britânica The Economist, que na edição de quinta‑feira (10) acusou a corte de “virar as costas para a democracia e agora a sufocar” em meio a um escândalo de corrupção envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. A análise, publicada antes das eleições gerais de 4 de outubro, coloca a mais alta instância judicial do país sob intenso escrutínio nacional e internacional.
A crítica surge poucos dias depois de o STF ter atuado para conter supostas tramas golpistas e, em setembro de 2025, ter condenado o ex‑presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. O julgamento, que gerou forte polarização, agora serve de pano de fundo para a denúncia de que a própria corte estaria comprometida com práticas que minam a confiança democrática, segundo o texto da revista.
Conexões suspeitas
De acordo com a investigação da Polícia Federal, o ministro Alexandre de Moraes teria mantido relações próximas com Daniel Vorcaro, ex‑controlador do liquidado Banco Master. Relatórios policiais revelaram contratos firmados entre a instituição de Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, contendo honorários “vultosos” e cláusulas vagas que garantiam ao escritório o uso de um jatinho particular e de um helicóptero de propriedade do banqueiro. Além disso, foram apreendidas minutas que autorizavam a troca de mensagens via WhatsApp em modo temporário, recurso que faz as conversas desaparecerem após a visualização. O volume de mensagens aumentou significativamente no período que antecedeu a prisão de Vorcaro, detido em flagrante ao tentar deixar o país.
O ministro nega qualquer irregularidade e afirma que os serviços contratados foram prestados dentro dos limites da lei. Contudo, a divulgação dos documentos policiais intensificou o debate sobre a possível influência de interesses privados nas decisões judiciais. A reportagem da The Economist destaca que a combinação de honorários atípicos, uso de aeronaves e comunicação efêmera cria um cenário propício à suspeita de tráfico de influência, sobretudo em um momento em que o STF exerce papel decisório em processos políticos de grande repercussão.
Outro ponto central da crítica da revista refere‑se ao Inquérito das Fake News, mantido sob sigilo permanente. O procedimento, conduzido por Moraes, permitiu o bloqueio de contas em redes sociais e concentrou no ministro os papéis de vítima, investigador e juiz. Segundo a análise, o inquérito passou a ser usado para retaliar auditores da Receita Federal e para coagir fontes da imprensa, configurando um mecanismo de pressão que foge ao princípio da imparcialidade judicial.
Tensão institucional
A publicação aponta ainda uma fissura interna no Supremo. O presidente da corte, ministro Edson Fachin, descrito como “íntegro”, propôs a aprovação de um código de ética que obrigaria os ministros a detalhar rendimentos externos. A proposta foi recebida com desdém por Moraes, que rejeitou a medida. Em outra ocasião, o ministro tentou processar o colega André Mendonça, responsável pela condução do caso Master, solicitando sua investigação criminal dentro do próprio inquérito das fake news por suposto vazamento de conversas. Fachin rejeitou o pedido e defendeu o arquivamento definitivo da apuração das fake news.
Essas divergências alimentam um clima de instabilidade que tem sido aproveitado por parlamentares da oposição no Congresso Nacional. Vários deputados e senadores já apresentaram novos pedidos de impeachment contra membros do STF, ao mesmo tempo em que defendem a anistia a Jair Bolsonaro após o pleito de outubro. A possibilidade de anular, em bloco, as provas obtidas no inquérito do Banco Master abre brechas jurídicas que podem beneficiar não só integrantes do Judiciário, mas também agentes políticos citados nas investigações, como o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ), candidato da direita à Presidência da República, cujo nome apareceu em áudios que supostamente cobravam valores milionários ao ex‑banqueiro.
Ao concluir a análise, a The Economist alerta que o desfecho mais danoso recairá sobre a sociedade brasileira, já exausta de sucessivos episódios de corrupção. Quando a suspeita atinge o coração do órgão responsável por aplicar a lei, a corrosão da confiança pública na democracia torna‑se ainda mais profunda e difícil de reparar. O próximo passo, segundo a revista, será observar se o STF adotará medidas concretas para restaurar sua credibilidade ou se continuará a enfrentar pressões que podem culminar em decisões judiciais anuladas e em um agravamento da crise institucional.







