O uso frequente de celulares, tablets e computadores na infância tem gerado preocupação entre especialistas da saúde ocular. O aumento da miopia em crianças está diretamente ligado à exposição prolongada a telas, segundo a oftalmopediatra Cintia Estort. O alerta inclui também alterações silenciosas que podem passar despercebidas pelos pais e só são identificadas em consultas de rotina.
O primeiro contato da criança com o oftalmologista ocorre ao nascer, por meio do teste do olhinho. Esse procedimento identifica alterações congênitas e outros problemas que exigem acompanhamento imediato. Após essa etapa inicial, as consultas preventivas se tornam essenciais a partir de um ano de idade para monitorar o desenvolvimento visual.
Diagnóstico precoce
Cintia Estort afirma que os pais não devem esperar a criança relatar dificuldade para enxergar. Muitas vezes, o atendimento médico acontece por queixas como coceira, piscadas frequentes ou desconforto ocular. No entanto, há casos em que as alterações são detectadas apenas em exames preventivos, sem sintomas aparentes.
A especialista explica que algumas crianças podem ter grau em apenas um olho e enxergar essa condição como normal. Essa percepção dificulta a identificação do problema pela família. Nesses casos, a avaliação oftalmológica é fundamental para detectar a alteração antes que ela comprometa o desenvolvimento visual completo.
Com a presença cada vez maior das telas na rotina infantil, a miopia tem ganhado espaço nas consultas médicas. Estudos citados pela oftalmopediatra apontam que, em 2050, metade da população mundial poderá ser míope. O problema não está apenas no tempo total diante dos aparelhos, mas na forma como a visão é utilizada.
Ao concentrar a visão por longos períodos, a criança tende a piscar menos. Isso pode provocar ressecamento, desconforto e o hábito de piscar repetidamente. Cintia também relaciona o uso abusivo de telas ao estímulo prolongado da visão de perto. Segundo ela, tablets, celulares e computadores aumentam a chance de a criança desenvolver miopia em 30%.
Limites e cuidados
“Hoje, eu vejo muito no consultório crianças que ficam seis a oito horas no celular tranquilamente”, relata a médica. O acompanhamento nos primeiros anos é considerado decisivo porque a formação da visão acontece até os sete anos. Quando problemas são identificados nesse período, a criança pode receber o acompanhamento adequado para evitar sequelas.
A consulta oftalmológica também pode revelar sinais de outras condições de saúde. A especialista cita alterações na córnea ligadas a fatores imunológicos ou sistêmicos. Ela lembra que o diabetes, por exemplo, pode causar mudanças no fundo do olho que só são percebidas em exames detalhados.
Em alguns casos, o exame ocular levanta suspeitas que exigem investigação médica mais ampla. Cintia relata já ter atendido um paciente de 13 anos com inflamação ocular. Durante a apuração da causa, o jovem recebeu diagnóstico de tuberculose, demonstrando a importância do olhar clínico completo.
Quando o assunto é exposição às telas, a recomendação é redobrar os cuidados. De acordo com Cintia, alguns estudos indicam limites por faixa etária. Até os seis anos, a recomendação é de cerca de 40 minutos por dia. Dos seis ou sete até os dez anos, o limite é de uma hora a uma hora e meia.
Aos 11 e 12 anos, o tempo sugerido é de duas horas. Para crianças acima dos 13 anos, o limite indicado é de três horas. A rotina de muitas famílias, no entanto, está distante desses parâmetros. A médica afirma que encontra com frequência crianças com registros de seis, sete ou oito horas de uso diário do celular.
Essa exposição excessiva pode envolver efeitos que vão além da visão, incluindo aspectos cognitivos, comportamentais e ansiedade. Para quem já usa óculos, as lentes fazem parte do cuidado, mas não significam que a miopia deixará de evoluir. Genética, idade, hábitos e outros fatores também precisam ser considerados no tratamento.
A orientação final é não esperar a criança reclamar para cuidar da visão. Consultas de rotina a partir de um ano, menos tempo de tela e mais atividades ao ar livre ajudam a proteger a saúde ocular. Essas medidas são essenciais em uma fase decisiva do desenvolvimento infantil.







