A temporada de balanços do terceiro trimestre começou com um alerta claro para o mercado financeiro. O Bradesco divulgou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões entre julho e setembro. O valor representa um avanço anual de 14,6% e marca o 11º trimestre seguido de evolução operacional desde o início da reestruturação da instituição.
Apesar do crescimento no lucro, o dado que mais preocupou os analistas foi o salto nas provisões para devedores duvidosos (PDD). O banco reservou R$ 10,6 bilhões no período, uma alta de 24,3% em doze meses. Esse valor destinado a cobrir possíveis calotes superou o próprio resultado líquido obtido no trimestre.
Pressão sobre a carteira
A inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,3% em junho para 4,6% em setembro. O aumento foi puxado principalmente por micro, pequenas e médias empresas, além do crédito rural e de clientes pessoa física de menor renda. Em resposta ao cenário, o Bradesco elevou para 61,2% a parcela de operações com garantias reais, o maior nível registrado desde 2023.
Essa postura defensiva impactou a rentabilidade. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) caiu para 14,6%, confirmando que a prioridade imediata foi reforçar o colchão de capital exigido pelas normas regulatórias. O ponto positivo ficou na contenção das despesas administrativas e com pessoal, que cresceram abaixo da inflação e mantiveram o índice de eficiência em 45,4%.
Desafio para os concorrentes
O desempenho do Bradesco eleva a régua de exigência para as divulgações de Itaú, Santander e Banco do Brasil nas próximas semanas. O Itaú é apontado por analistas como a principal aposta de estabilidade, sustentado por uma carteira historicamente mais defensiva e controle rigoroso de perdas. Já o Santander divide opiniões no mercado, com especialistas destacando a seletividade no crédito e outros adotando cautela diante da troca de comando executivo.
O Banco do Brasil concentra a maior apreensão dos investidores. A instituição tem forte exposição ao agronegócio, setor que enfrenta volume expressivo de vencimento de safras neste trimestre. Projeções indicam que o retorno sobre patrimônio do banco público pode recuar para a faixa de 7%, patamar inferior ao seu custo de capital.
Para interpretar os próximos balanços, analistas recomendam olhar além da última linha do demonstrativo financeiro. É essencial acompanhar os atrasos de curto prazo, entre 15 e 90 dias, as renegociações de dívidas e a migração de risco entre os estágios das operações. Essas métricas revelam onde o calote está se formando antes de atingir o balanço oficial. A cobertura de provisões também precisa ser examinada para garantir que o lucro não tenha sido inflado por reservas insuficientes.
No cenário macroeconômico, o mercado projeta a taxa Selic em 13,25% ao final de 2026 e em 12% em 2027. No entanto, o alívio nas finanças dos tomadores não ocorre de forma imediata. O corte de juros costuma levar de dois a três trimestres para reduzir a inadimplência na ponta final. Somado a isso, incertezas fiscais domésticas e a instabilidade internacional mantêm a curva de juros sob volatilidade, adiando uma melhora expressiva nos fundamentos de crédito para o próximo ano.








